terça-feira, 18 de setembro de 2012

Má Companhia, II



Quando Matsumoto terminou o interrogatório, eu estava cansado demais para pensar num plano de fuga ou fazer qualquer coisa além de me arrastar para um canto escuro e apagar. Estava ferido, exausto, e faminto, e não tinha certeza sobre o paradeiro da valise com minhas últimas provisões.

Se as coisas podiam piorar?
Sempre podem.

Haviam estendido uma coberta na carroceria, onde o Pastor João Paulo e suas esposas - Cecília e Míriam - faziam uma oração. No entorno da Scania havia outras quatro barracas-iglu do exército, mas, exceto pela "sagrada família" e pelo coronel, todos se aqueciam em torno de um tambor metálico fumegante, onde algo cozinhava dentro de uma panela.

Tentei ser positivo, e fiz o possível para demonstrar toda a confiança e honestidade próprias a um recruta não-voluntário da "Resistência" - o que quer que essa porra significasse. Estendi a mão boa em uma saudação, mas poucos se dignaram a me dirigir um olhar. Torres, o sargento corpulento que horas atrás havia enfrentado o mar desmorto para salvar minha vida, simplesmente se levantou e me deu as costas enquanto eu me aproximava do fogo. Wiliam esboçou um sorriso opaco, que morreu assim que Rodrigo o mirou com seus olhos de psicopata, sem parar de amolar a enorme faca kukri que tinha nas mãos.




Pedro Metralha fumava o meu maço de luckies vorazmente, prendendo o riso de escárnio e o cigarro nos dentes encavalados. Mas que filho da puta... eu simplesmente não podia permitir que ele fumasse aqueles luckies.

***

Eles estavam comendo as minhas últimas provisões - ervilhas, salsichas e pêssegos para a sobremesa. Os mais escrotos dentre eles comentavam como a comida estava boa, mas me segurei. Miranda cuspiu uma das esferas de flechette na mão e resmungou:

__Mas que merda, hein, Neanderthal! você é tão fodido que até as suas ervilhas levaram chumbo!

O casal ria da minha desgraça, seguido por seu cachorrinho ressentido. Mas naquele momento eu soube que eles estavam condenados. Minha mente foi tocada pela luz da compreensão - e desta vez era a luz vermelha da morte.

[O convidado prudente tem sua maneira de tratar
com aqueles que o ridicularizam a mesa:
Ele sorri através da comida e não parece ouvir 
as bobagens faladas por seus inimigos]

__ Onde está minha bolsa? - fiz um esforço tremendo para não deixar o ódio explodir, o que seria simples suicídio. A voz passou rascante pela minha garganta, mas saiu baixa e hesitante, como eu planejava.

  [Você precisa ficar frio

__ Está aqui comigo. Procurei uns medicamentos nas suas coisas, mas não encontrei nada que preste. Achei que não se importaria de compartilhar a sua comida, já que salvamos a sua vida e tal, mas, de qualquer maneira, se essa ferida infeccionar, e sem antibióticos, você não vai durar muito. Deixa eu ver esse braço.

Era Sérgio Vidal quem falava... o dentista se mantinha incrivelmente balofo, mesmo com a escassez de comida dos dias atuais. Sentei ao lado de Pedro, o Lacaio, enquanto Sérgio lavava o meu ferimento e tentava abri-lo com uma pinça e uma tesoura. Estava inchado, dolorido, mas aguentei firme enquanto ele extraia um caco de vidro inacreditável da ferida.

__ É quase certo que isso vai infeccionar. E se infeccionar, você já era. Ah! nós estamos sem sabão.
__ Que seja... - eu gemi. __ Só me diga que eles não roubaram o meu vinho.  

[Seja frio. Seja muito frio]

__ Bom, eu pensei em ficar com a garrafa em pagamento pela consulta... mas se você faz tanta questão, que se foda. Não quero piorar as coisas para você. Seria até antiético.
__ Pode me devolver minhas paradas agora? Se eu viver o suficiente, pagarei pela sua consulta.
__ Ahãm. Pode pegar. Mas você vai notar que suas armas foram confiscadas até o coronel decidir o que fazer com você.
 
 ***

Eu dormi no chão duro, enrolado na manta suja e usando a valise quase vazia como travesseiro. A garrafa de Cabernet estava precariamente escondida sob a valise.

[Seja frio]
Eles vieram à noite, se esgueirando vorazes como ratazanas saídas das sombras. Acordei, mas permaneci com os olhos fechados, enquanto eles me cercavam. Me preparei para o impacto, e como o previsto, ele estourou de novo nas minhas costelas.

__ Cadê a birita, Neanderthal?
__ Vocês não se satisfazem em roubar meus cigarros? Vão roubar o meu vinho?
__ Cala a boca, porra. Cadê a birita? - era a voz de Pedro Lacaio. __ Eu ouvi você falando que tinha uma garrafa de vinho, seu otário.
__ Ninguém aqui vai dar a mínima se você morrer, Neander. Aliás, amanhã eu vou votar pela sua morte. - O Metralha relinchava ameaças, e eu sentia o seu bafo de ódio.
__ Se eu der a garrafa, vocês vão parar? Vão parar de me torturar e de me roubar?
__ Não, mas você pode sonhar com isso até amanhã. Pelas minhas contas, você já é um homem morto.
__ Não vou... - as palavras morreram em meus lábios quando a mão pesada me acertou na cara. Rolei para o lado, me agarrando a valise e revelando a garrafa.

[Frio]

__Estou avisando para devolverem a minha garrafa - falei alto.
__ Cale a boca, estrangeiro. Não está achando que eu vou te salvar dos mortos de novo, está? - era Torres, que estava de vigia naquela noite.
 
Os ratos se afastaram na escuridão, ao encontro do seu destino.
Voltei a dormir.
Fazia muito frio.

 

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